quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Droga de amor



O amor é uma droga explícita.
A abstinência é o único antídoto para o abandono deste vício.

É possível se libertar,
quando a luta tem este objetivo.
A dor pode ser incontestável. Mas a excitação pela vida é infinitamente maior.

Lembranças se fundem com desejos
Espetados, incômodos
Nos cacos que sobraram de uma Torre de Babel
que caiu.

Agora sou eu quem cuido de mim.
Minhas necessidades são egoístas
E me permito ter raiva da tua covardia.

Se o coração fosse na barriga
como se acreditava na Idade Média
diria que sinto dor abdominal. Visceral.
Porém,
as ervas que tratam deste tipo de enfermidade
já estão dispostas no meu balcão
e a água fervendo, esperando imersão.

Em breve estarei melhor do que já estou
e pronto para outros ciclos.
Um dia depois do outro,
e pessoas na minha vida, na mesma ordem, virão.

Eu declaro minha independência
E não preciso mais de pena de ninguém.
Agora (verdadeiramente) estou seguro
Meu governo a mim diz respeito
e o vazio no peito
já começou a deixar de existir.

domingo, 3 de outubro de 2010

Aguardo, não sei por quanto tempo


Não vou além de onde estou,
seria esbarrar em muitos princípios
próprios
que eu tenho e não abro mão.

Porém, apenas duas palavras
Profetizadas pela tua boca
Disparadas em ressonância
Mudariam o rumo da minha história. E da tua.

Entendo o quão é difícil encerrar o que tens agora
E como seria complicado tocar
Algo novo. Neste contexto.
Mas a vida é uma caixa de surpresas
e eu não tenho coragem de fechar portas para belas oportunidades.

Com essas duas palavras
ditas no linguajar da novidade
como aposta em diversão, igualdade
aposto para tua fragilidade
Eu não pensaria duas vezes em acatar.

Me atiraria de alma
Levaria meus medos
Curaria tuas chagas.

Ainda aguardo essas palavras
ditas pessoalmente, na sala da minha casa
com ímpeto de completude.
Te espero, sentado no sofá
olhando pra janela
e me dá arrepios pensar em como seria ouvir de ti:

- ESTOU LIVRE.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sozinho




Penei no meu caminho
como se fosse o certo
Atravessei a rua
com meu passo tímido
Olhar atrás dos óculos
pupilas frenéticas
Mastigando meu chiclete
gosto menta ácida.

Mirei olhar pra cima
ofuscando a vista
A lágrima brotou
no rosto antes pálido
A certeza da certeza
se desfez em dúvidas
Tudo que eu acreditava
Voou, borboleta.

Eu caço teu carinho
como um respiro
Corroo minhas falhas
fagulha de lástimas
Te quero, te preciso
do meu lado único
Aceito tua ida
e minha vida cinza
Com ódio de ganhar
a tua despedida.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010



No altar do sultão tudo é riqueza.
Aneis para os dedos
Armas para os zelos
E um querer mandar sem sutileza.

O cálice, com ópio
O mámore, colóquio
E amor de sultana. Proeza.

Frutas para morder
manifestos para querer
E talvez um trono. E paciência.

Linhaça
Cachaça
Açúcar
Sem fim.

O amor, que é só amor
ali não rima com nada.
O poema, que é som, andor
ali empedra. 


Majestade cansada.

Descomeçar



Eu conheço o medo de ter medo
e meço, na medida mediana
a angústia de esquecer o que não deu.

Lembra, se puder
o pudor que tínhamos outrora
a cena, enquadrada, vislumbrada
sanatória
e
me diz
agora
onde é que vais colocar as mãos?

Não tenha medo. Por ti, eu já tenho.
Transpassa o passo no mundo afora
Te faz pena leve, em vento forte
Me come, me chupa. 
Me namora. 




quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Madalena



A Madalena me ligou. E quis carinho.
Não sabia absolutamente o que dizer, o pranto comunicava tudo. O telefone, molhado do outro lado, escorre mais do que agruras. Escorre. Choro e dor.

Pode vir o que for do lado de lá. Sempre tem jeito.
A vida me deu o presente de estar na lista telefônica dela. Na memória do chip do aparelho. Como último recurso contra o que tinge o seu rosto de maquiagem borrada.

Nada mais para acreditar. Além do que você já viu, Madalena.
Grita para comemorar. Torce para amanhecer. O tempo não manchará mais do que o lenço que te faz compania presente. Adere ao suspiro livre, ao vento que baila teus cabelos na calçada.  Crê no brinde da taça de vinho, no vermelho que marca a digital do teu beijo, no cristal do copo de extrato de tomate.

Ele não voltará, querida. E isso é bom.
Orquestra sinfônica de silêncio. Te compro um ingresso, e tu vais sozinha.
Tudo vai passar. Inclusive, esse teu sôfrego engasgo de resposta.
Encosta, no sofá rasgado, e dorme.
O que tu precisas é de um pouco de abraço de ninguém.

Candidatura





Lanço aqui minha candidatura. Tanto faz se para deputado, senador ou prefeito. Essa escolha também fica por sua conta. Vou aproveitar ao máximo os luxos da democracia.

Seria injustiça se não colocasse meu nome ao seu dispor, caro eleitor. Em primeiro lugar, lhe asseguro que não farei nada por você. Nem pela pátria. Nem por ninguém que não me interesse (e isso é bastante gente).

Não sou bobo em ir contra a maré. Ninguém faz nada, não sou eu quem vou fazer. Corro o risco de ser alvo de olhares pecuniosos, nada peculiares. Minha mais forte característica é a preguiça. Aliás, esta palavra vai fazer parte do meu slogam eleitoral, de alguma maneira. Assim que eu tiver disposição, penso em algo.

Então, minhas ferramentas para fazer alguma coisa útil serão não fazer absolutamente nada. Meu partido será o mais absoluto mal senso. Receberei meu salário, encargos, comissões e caixa-dois com amor ao povo, aquele que compõe os metros quadrados da minha casa. Talvez algum mendigo do Parcão, se me cativar a bondade momentânea. Mas desde já não garanto.

Caso você, passivo eleitor, dedique a mim seu voto nas caixas mágicas, teclando meu número ao contemplar a foto sorridente, lhe agradeço. Aquele boneco que me representa será o máximo de contato que terás comigo. Depois daquilo, te peço que me ignores. Eu farei o mesmo, honrando meu brasão que nada tem de verde e amarelo. Ignorar não deve ser pedir demais para um ignorante.

Ao receber os dez contos mensais, sairei para festas e comprarei quindins.  Talvez fique mais generoso nos pequenos roubos diários, milímétricos delitos, no troco do pão e do leite  na venda da esquina. Isso se não encotrar o mendigo citado acima. Concorro a um cargo político, não a uma vaga de padre na capela do centro da cidade.

Se eu melhorar minha vivência, encostar em travesseiros de pena de ganso, o povo ganha. Isso porque, sendo eu parte da humanidade, e nós um conjunto, quando um melhora, os outros também. Mesmo que seja espiritualmente. Minha fortuna a todos agrada. Ou deveria, se fossem espertos.

Depois, ao invés de me reeleger, escolho uma mulher qualquer e lanço para minha vaga. Mulheres cativam. Já vou ter não trabalhado bastante. Sonho, mais do que tudo, com a aposentadoria. Se não vingar, contrato alguém para quebrar o sigilo bancário da minha finha e cunhado, os quais eu sustendo à pão-de-ló, vinhos e queijos. Digo que foi meu concorrente.

Convenhamos. Podes me taxar de qualquer coisa. Mas não de criativo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Nós somos diferentes?

























Nós somos diferentes?

Realmente, um post sobre as discrepâncias humanas é algo difícil de se construir. Sendo que, invariavelmente, todos acham já ter a resposta sobre a dedução que abriu esse post, na ponta da língua. Cada um com a sua. E todos pra lá de certos.

Porém, já pensaste que pode existir uma conclusão mais unânime? Algo mais paupável, em que possamos nos enrraigar mais fortemente?

Meu cabelo não é igual ao teu / O teu nome nao fui eu quem deu. Já dizia aquela música.
Mamãe costumava falar sobre isso de maneira menos "pop" e taxativa. Explicava que meninos tinham pintinho e meninas uma outra coisa, inominável. Talvez ela achasse que xexeca, buceta ou outra coisa do gênero poderia traumatizar a cabeça de uma criança. E se eu perguntasse a ela novamente, agora mesmo, qual seria a resposta? Igualmente cuidadosa? E vou mais longe... qual seria a resposta da SUA mãe? Qual o vocabulário de explicações dela?

Eu não tenho equivalentes. Não sou idêntico a ti, nem a minha mãe. Não tenho as mesmas respostas que ela, nem as mesmas que tu, nem as de ninguém. Nem pretendo ter. Não PRECISO ter.

E essa já é a resposta pronta de todos. E a minha também.

domingo, 6 de junho de 2010

Vida repetida


A falta de verdade nos meus dias,
me embala como canções de ninar vazias.
O mais, no mais, tardia,
uma vontade de escrever sem ter tempo.
Covardia repetida.

Pirraça, de não mais saber me sentir inteiro
no intento de me tomar mais completo, ligeiro
na vontade de espassar os minutos, matreiro
e de me encontrar teclando coisas em vão. Do coração.

Minuto, que se passou e antes era tão belo
e agora que o vivi, virou flagelo
por não ter feito o que eu deveria ter dito
E ter dito o que deveria ser feito.

Mas antes de mirar aurora na minha janela
de fechar os olhos e abrí-los, nesta cela
de embates e desencontros festivos

Garanto que tudo vai acontecer de novo
e o novo, virá como artigo antigo
com cheiro de coisa reformada, relida.
E assim vou reformando a minha vida.
Repetida.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Quizera eu


Quizera eu, com gosto
Ser teu sonho que jamais confessarias.
Personagem do delírio mais devasso.
No espaço dum sorriso de escraxo
A cor rubra que aquarela o teu rosto.

Quisera eu, te servir como alimento
Aoa teus caprichos, disposto em uma bandeja
Ser mastigado, engolido e digerido.
Te nutrindo
E em teu estômago me transformar em borboletas.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Silêncio - O "resto" da linguagem


O breve instante de tempo, calado
Quando o sentido faz mais sentido
(E é mais sentido)
O mudo atravessa as palavras
E expõe a carne, não só a língua.

A censura do som é alma
O fôlego da significação.
Usada quando se tem palavras, é arma
E quando já não se tem, conclusão.

A frieza dos modos gramaticais
Nada pode contra ele, quando bem posto.
Pois, se eu mudo, mudo o mundo
Defino tudo:
- A verdade é silênica!

sábado, 9 de janeiro de 2010

Canto à coragem - (Prece do Covarde)


Se ela vai, que bem ligeira
Logo assim passa o perigo
Corriqueira, não serás
A coragem, o desvio.

Vem pra mim, novidadeira
Vem brindar-me com teus laços
Vem fazer tricô, bordado
No meu peito de tecido.

Vem fazer café no pano
Ver cozir linha e comida
Vem depressa, toma guia
Que o café já já esfria

Vem calçar-me uma meia
O sapato, vem lustrar
Que preciso, inda em breve
Tango e salsa desfrutar.

Vê se fica, não se esconde
Me acompanha nesa lida
Me encara, dê pujança
Te incorpora, aqui, querida.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Menino


Era uma vez, um coletivo de desejos.
Todos eles entrelaçados.
Correntes, com elos soldados à brasa das vaidades.

E na corrente tentativa
de ativá-los, impô-los em sua vivência,
um menino ruiu.

Se pôs ao norte de suas façanhas,
ao sul de suas conquistas.
Pode, então,
contemplar o que de verdade lhe faltava como arte.

E na ruína, o menino riu.
Viu que não lhe faltava a escultura,
a pintura,
a música.

Em pedra-sabão a escultura da vida estava iniciada.
A pintura dos sonhos, preparada na palheta.
A música das palavras,
doce,
ecoando aos quatro cantos.
Tudo leve, a sua disposição.
Como bolha de sabão.

A Ruína se tornou, então, RIMA.

E sem amarras,
livre de qualquer peso que o liquefazesse,
ou aniquilasse,
Ele seguiu.

Sem erros ou negações,
Com zelo e pregações
Alçou voo.

Bolha de sabão.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Breviação

As palavras escalam o pulmão até a garganta, e lá ficam presas. Os verbos jazem estagnados na recordação de que um dia foram presente e agora são bálsamos de lembranças. Artigos... Ah os artigos! Estes se moldam e se remoldam, restringindo-se a crases da antiga intolerância e futuros rasgos de memória. Nos olhos, as íris vis transpõem-se em interjeições explícitas, macumunadas e protegidas por cílios que se nomeiam a própria razão. O que se teve um dia não se tem mais, e entre a reconfortante certeza do que se foi e a inquietante obviedade do que se é, vai-se citando futilidades como uma desesperadora arma de proteção e auto ataque. Assim eu me protejo. Assim eu te ataco.

Espetáculo de amor



    Somos artistas. Artífices diante um amor platônico e mal ensaiado. Amadores perplexos, seres autistas perante falas de quereres gaguejadas e repetitivas. Parecemos arlequins descortinado camarins atrás de uma lânguida lantejoula de Colombina. Conosco nada combina, nada tem jeito, tudo é latrina. O público não aplaude palhaços condenados por anistia...

     Neste espetáculo que turva ideias puritanas nos destacamos por defender papéis reais, verdadeiros, almejar ideais. Não sai de cartaz nossa voracidade em viver e realizar o que nos satisfaz, independente do script pré-definido de espetáculos vizinhos, os quais nunca terão sucesso e brio como o nosso. Não temos rivais. Somos e sempre fomos todos iguais.

     No folhetim de teus atos meu desejo é mocinho e teu orgulho vilão. Viajo acordado em meus sonhos, cujas trombadas sem descanso (e sucessivas) de teus olhares me colocam na contramão. Sigo sem blindagem. Não há pára-choque de amores que me proteja de tal situação.

     O pagamento para este espetáculo é a certeza de que o destino nos aguarda na fileira da frente, num eterno ensaio faltante para um show completo. No meu corpo-palco, onde apresentas teu show pífio e repetitivo, guardo a certeza de que nunca terei espectador tão vil e perpétuo, tão querido e odiado quanto os trejeitos do teu beijo.

     Não precisamos de comunicação nem legendas, tua boca despeja asneiras quando sozinha e, no encontro com a minha, se traduz em maldades. E quando digo que não e teu ego pede bis, caio em tentação e recito mais uma cena de paixão. Replay de um breve instante frenético, inóculo. O que se repete em um círculo roda-viva de vício pelo teu cheiro de presa e pela pressa de te ter como meu. Mais meu. De novo e cada vez mais nossa, essa necessidade de corpos atados e estados evasivos.