Somos artistas. Artífices diante um amor
platônico e mal ensaiado. Amadores perplexos, seres
autistas perante falas de quereres
gaguejadas e repetitivas. Parecemos arlequins descortinado camarins atrás de uma
lânguida lantejoula de Colombina. Conosco
nada combina, nada tem jeito, tudo é
latrina. O público não aplaude palhaços condenados por anistia...
Neste espetáculo que
turva ideias puritanas nos destacamos por defender
papéis reais, verdadeiros, almejar ideais. Não sai de
cartaz nossa voracidade em
viver e realizar o que nos satisfaz, independente do script pré-definido de
espetáculos vizinhos, os quais nunca terão sucesso e
brio como o nosso. Não temos rivais.
Somos e sempre fomos todos
iguais.
No
folhetim de teus atos meu
desejo é mocinho e teu orgulho
vilão. Viajo acordado em meus sonhos, cujas trombadas sem descanso (e sucessivas) de teus olhares me colocam na contramão. Sigo
sem blindagem. Não há
pára-choque de amores que me proteja de tal situação.
O pagamento para este espetáculo é a certeza de que o destino nos aguarda na
fileira da frente, num eterno ensaio faltante para um show
completo. No meu corpo-palco, onde apresentas teu show pífio e repetitivo, guardo a certeza de que nunca terei espectador
tão vil e perpétuo, tão querido e odiado quanto os
trejeitos do teu beijo.
Não precisamos de
comunicação nem
legendas, tua boca despeja asneiras quando sozinha e, no encontro com a minha, se traduz em
maldades. E quando digo que
não e teu ego pede bis, caio em tentação e recito mais uma
cena de paixão. Replay de um breve instante frenético, inóculo. O que se repete em um
círculo roda-viva de vício pelo teu cheiro de presa e
pela pressa de te ter como meu.
Mais meu. De novo e cada vez mais nossa, essa necessidade de
corpos atados e
estados evasivos.