domingo, 21 de fevereiro de 2010

Quizera eu


Quizera eu, com gosto
Ser teu sonho que jamais confessarias.
Personagem do delírio mais devasso.
No espaço dum sorriso de escraxo
A cor rubra que aquarela o teu rosto.

Quisera eu, te servir como alimento
Aoa teus caprichos, disposto em uma bandeja
Ser mastigado, engolido e digerido.
Te nutrindo
E em teu estômago me transformar em borboletas.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Silêncio - O "resto" da linguagem


O breve instante de tempo, calado
Quando o sentido faz mais sentido
(E é mais sentido)
O mudo atravessa as palavras
E expõe a carne, não só a língua.

A censura do som é alma
O fôlego da significação.
Usada quando se tem palavras, é arma
E quando já não se tem, conclusão.

A frieza dos modos gramaticais
Nada pode contra ele, quando bem posto.
Pois, se eu mudo, mudo o mundo
Defino tudo:
- A verdade é silênica!

sábado, 9 de janeiro de 2010

Canto à coragem - (Prece do Covarde)


Se ela vai, que bem ligeira
Logo assim passa o perigo
Corriqueira, não serás
A coragem, o desvio.

Vem pra mim, novidadeira
Vem brindar-me com teus laços
Vem fazer tricô, bordado
No meu peito de tecido.

Vem fazer café no pano
Ver cozir linha e comida
Vem depressa, toma guia
Que o café já já esfria

Vem calçar-me uma meia
O sapato, vem lustrar
Que preciso, inda em breve
Tango e salsa desfrutar.

Vê se fica, não se esconde
Me acompanha nesa lida
Me encara, dê pujança
Te incorpora, aqui, querida.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Menino


Era uma vez, um coletivo de desejos.
Todos eles entrelaçados.
Correntes, com elos soldados à brasa das vaidades.

E na corrente tentativa
de ativá-los, impô-los em sua vivência,
um menino ruiu.

Se pôs ao norte de suas façanhas,
ao sul de suas conquistas.
Pode, então,
contemplar o que de verdade lhe faltava como arte.

E na ruína, o menino riu.
Viu que não lhe faltava a escultura,
a pintura,
a música.

Em pedra-sabão a escultura da vida estava iniciada.
A pintura dos sonhos, preparada na palheta.
A música das palavras,
doce,
ecoando aos quatro cantos.
Tudo leve, a sua disposição.
Como bolha de sabão.

A Ruína se tornou, então, RIMA.

E sem amarras,
livre de qualquer peso que o liquefazesse,
ou aniquilasse,
Ele seguiu.

Sem erros ou negações,
Com zelo e pregações
Alçou voo.

Bolha de sabão.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Breviação

As palavras escalam o pulmão até a garganta, e lá ficam presas. Os verbos jazem estagnados na recordação de que um dia foram presente e agora são bálsamos de lembranças. Artigos... Ah os artigos! Estes se moldam e se remoldam, restringindo-se a crases da antiga intolerância e futuros rasgos de memória. Nos olhos, as íris vis transpõem-se em interjeições explícitas, macumunadas e protegidas por cílios que se nomeiam a própria razão. O que se teve um dia não se tem mais, e entre a reconfortante certeza do que se foi e a inquietante obviedade do que se é, vai-se citando futilidades como uma desesperadora arma de proteção e auto ataque. Assim eu me protejo. Assim eu te ataco.

Espetáculo de amor



    Somos artistas. Artífices diante um amor platônico e mal ensaiado. Amadores perplexos, seres autistas perante falas de quereres gaguejadas e repetitivas. Parecemos arlequins descortinado camarins atrás de uma lânguida lantejoula de Colombina. Conosco nada combina, nada tem jeito, tudo é latrina. O público não aplaude palhaços condenados por anistia...

     Neste espetáculo que turva ideias puritanas nos destacamos por defender papéis reais, verdadeiros, almejar ideais. Não sai de cartaz nossa voracidade em viver e realizar o que nos satisfaz, independente do script pré-definido de espetáculos vizinhos, os quais nunca terão sucesso e brio como o nosso. Não temos rivais. Somos e sempre fomos todos iguais.

     No folhetim de teus atos meu desejo é mocinho e teu orgulho vilão. Viajo acordado em meus sonhos, cujas trombadas sem descanso (e sucessivas) de teus olhares me colocam na contramão. Sigo sem blindagem. Não há pára-choque de amores que me proteja de tal situação.

     O pagamento para este espetáculo é a certeza de que o destino nos aguarda na fileira da frente, num eterno ensaio faltante para um show completo. No meu corpo-palco, onde apresentas teu show pífio e repetitivo, guardo a certeza de que nunca terei espectador tão vil e perpétuo, tão querido e odiado quanto os trejeitos do teu beijo.

     Não precisamos de comunicação nem legendas, tua boca despeja asneiras quando sozinha e, no encontro com a minha, se traduz em maldades. E quando digo que não e teu ego pede bis, caio em tentação e recito mais uma cena de paixão. Replay de um breve instante frenético, inóculo. O que se repete em um círculo roda-viva de vício pelo teu cheiro de presa e pela pressa de te ter como meu. Mais meu. De novo e cada vez mais nossa, essa necessidade de corpos atados e estados evasivos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Flutuar



Existia, em um quarto pequeno e assustador
Um garoto igualmente pequeno e assustador.

Este quarto, em uma cidade grande, prendia o garoto
E o fazia ter ideias pequenas e assustadoras.
Noções pequenas e assustadoras.
E o encerrava em um mundo com as mesmas dimenções.

Porém, ele tinha uma mania. Escrever coisas que você nunca leu.
E viajando em suas própria palavras, criou penas e ossos ocos.
E voou.

Será que isso tem algum significado?
Serias forte o bastante para descobrir?

Existe um par de asas, em algum lugar, dento de ti.
E elas estão preparadas.

Compania tens. Capacidade, sempre teve.
Agora só falta a coragem.


Vamos flutuar?

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Destruir ou devorar?



É tão tentador tentar a dor... Cutucar aquela ferida que, cicatrizada, um dia produzia pus e hoje só coceira traz. Me sinto dono das emoções, próprias, e me desfacelo antes que façam isso sem avisar. Como sou rápido!


Das fraquezas, o rei absoluto. O tapete, vermelho de perigo.


Atrás do bonde diário de rotinas, corto caminho e respiação, tentando não ser tragado por um desmaio de loucura ou relampejo de consciência. Passeio por cada cigarro fumado, asneira ditada, pronúncia de ânsia corporal. Cortejo à vida inconsequente, pelos devaneios da mente, pela permissão de tentar um pouco mais.


Me municio com dilemas novos, com pesares leves, com uma nova ótica de observar a mim e aos outros. Somos todos ridículos. São todos ridículos. Hoje tenho a certeza de que o mesmo esforço que faço para rir, faço também para chorar.


Eu me perdoo por todos os muros que desci, sendo que deveria lá ficar. Todas as decisões atrozes que suportei sem o suplício medo de errar. Por todos os males que cortei pela raíz, sabendo que frutas ácidas também podem alimentar. Tudo pode ser palatar.


O carinho por mim se engrandece na mesma fração e frequência que a sede pelo mundo, a fome pelo tudo, o cuidado para não pisar no reboco da lajota. Lá, pelo mundo que me cerca e que me tem. Perdi o medo, a vergonha, o sono, o copo de cólera clichê que bebia toda santa manhã, com requintes de morbidez.


E, no meio e como resultado de tudo isso me pergunto: Destruir ou devorar?

Cama desarrumada


A coberta sobre a cama amarrotada
amargurada
com botões sim, botões não.

Esboço de figuras de paisagens no tecido
dão um ar de finitude
ao corpo que deveria ali repousar. Mas está vão.

Os fios que tecem o que cobre a carcaça
que dá vasão aos sonhos
São o abraço que, quando sozinho, sinto a me pacificar.

O aroma bom do travessero
do eu calmo, sonolento
é a coisa mais vil que insiste em me bastardear.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

sentimento restrito



Um arrepio cálido
Me percorre a espinha
Num semblante arredio-pálido
Num cálice de nada, fogo apagado
e descança na nuca, pudica.

Essa é a mo-no-to-ni-a
Casamento orgânico, com um sentir só
Santa exisência, mais santa avaria
Na lataria, bem podes ver, aqui, ó.

Se queres ensejo
Some lance, ocasião e oportunidade
Juntai tudo, em um mesmo delito
E terás, conjunto e restrito
Um leque de trivialidade.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Eza


A questão é a presteza.

s.f. Pressa, ligeireza, celeridade.
Agilidade.
Obsequiosidade.

Enquanto a maioria vive este verbo
Na alma de poucos, o adjetivo ainda é grandeza.

domingo, 26 de julho de 2009

Quimera


"São tantas escolhas Vertentes tão óbvias (Órfãs) Que me deixo enfrentar. No íngrime eu vou Seleto e confuso Com medo de errar. Me ponho em trabalho De tanto cançasso Deságuo a chorar. E no contexto (Convexo) Vudu de quimeras Refén de esperas Eu sigo a rezar".

Noite

Gosto de baunilha
Cheiro de grama cortada
Barulho de mar
(E mórbida)

A noite de agora
parece infinita
Linda.
(E quieta a cantar)

Os trejetos sinalizam luzes
Remetem a algo
Que eu não sei explicar
(E pálidas)

A vontade de tudo
Que dissipo no nada
Está a transbordar.
(Tão gélidas)

Borrões de mirra
Insensos de incestos
Carícias, perícias
E o med0 de estar.

Tão sólidas.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Perdido

O descame de pele aos ácaros
O reclame de fé aos bárbaros
Nem tudo faz sentido (nem deveria).

Sentado aqui, brincando com o sentir
Sentido, sentindo o mais e maior desejo
O próprio, o vão, o lento e o esguio
Aquele que se perde no final de um fraquejo.

Latejo, o corpo nem sequer se diferencia
Do solo e do céu, um embaixo e outro em cima
E no meio, entre terra e nuvens pesadas
O Eu, aquilo que é (in) certezas passadas.

Sabendo que mata, que cura e que salva
Mesmo assim fujo da luz que tens lido
Um momento, um cálice, uma mente muy alva
E no eu, de novo, constante e perdido.

Tempo pro meu teu (prometeu)


Procura-me com ânsia de encontrar
Seja pele, carne, instinto
Que no meu tempo vago
Eu hei de te mostrar, inato
Uma inquietude ímpar
A sensibilidade do tesão
O calor do amor
E tudo mais que mereceres suportar.

Somos um par de reis
Dois às de paus
Um truco, um tranco
Uma fortaleza de abraços e de pesar.

Longe de sermos moldes feitos
De alma, de viver e de pensar
Ao contrário, somos fortes, somos fonte
De uma nova maneira de amar.

E a indagar se somos loucos
Eu respondo:
- Isso faz alguma diferença?
Se na minha loucura, e na tua, somos poucos
Completos
Quem pode sobre isso dar sentença?

Eu sou a favor das expressões!
Minha mão impressa na tua
Ao preço de fugir das impressões
Nossa vaidade, estampada na calçada
Calcada
Em uma linda maneira de viver
E de levar.